Feeds:
Posts
Comentários

5.aniversario

Dennis González é um pedreiro-livre, um ocultista, um druida até, do trompete. Com o instrumento dourado de Miles, Hubbard e Cherry procede à permanente auscultação daquilo a que chama de “mundo do espírito”. Este antigo parceiro de grandes como Cecil Taylor, Malachi Favors, Charles Brackeen, Kidd Jordan e Roy Hargrove acredita mesmo que é o que “não se vê” (e o que não se ouve, por inerência) que constitui a verdadeira realidade. É esse lado desconhecido que traduz em sons e em estruturas espontâneas, na perspectiva de que a improvisação que generosamente utiliza é a melhor técnica para descobrir a música que tem dentro de si e que está, imanente, em todo o cosmos. Vamos ouvi-lo com o clã de feiticeiros que dá pelo nome de Yells at Eels, coadjuvado pelos seus filhos Aaron e Stefan González, respectivamente no contrabaixo e na bateria. O que praticam é um jazz expansivo que agarra nas tradições do hard bop e da new thing e as projecta para o século XXI, sorvendo uma miríade de vocabulários musicais ao longo desse processo. O corpo embala-se-nos com o ritmo e a energia desta música, mas são as nossas mentes que disparam em direcção a esse lugar, por alguns julgado mítico, onde reside a Essência de tudo o que existe. John Coltrane e Albert Ayler é lá que moram.

 

Novo Horário

Guida40-007small

A partir do dia 21 e até 30 de Outubro
a Trem Azul Jazz Store vai abrir às
12h00 e encerrar às 19h30.
(sábados abre às 14h00)

Novidades

AUM058

Joe Morris Quartet Today on Earth

Joe Morris guitarra
Jim Hobbs saxofone alto
Timo Shanko
contrabaixo
Luther Gray bateria

Com poucos meses de intervalo (o anterior “Wildlife” é de Julho passado), eis que surge o segundo álbum de um grupo que conta com quatro anos de existência. Este simples facto dá bem conta do apreço que o guitarrista Joe Morris tem por este projecto partilhado com Jim Hobbs (saxofone alto), Timo Shanko (contrabaixo) e Luther Gray (bateria). Mais estruturada do que é habitual nos grupos que lidera ou em que participa, a música agora oferecida pelo seu quarteto é bem mais “boppish” do que poderíamos esperar, dá especial ênfase ao “swing” das suas bases rítmicas e usa como mote simples e sugestivas melodias, tanto assim que quase têm um efeito folk. Não fosse a forma inovadora e original como Morris toca a guitarra e teríamos em “Today on Earth” algo de muito próximo do “mainstream”. Especialmente interessante é o tema “Animal”, que mais do que marcar o retorno a um formato convencional, abre no trajecto deste músico uma via que, tudo o indica, será muito interessante de percorrer. Na faixa-título, Hobbs dá vazão às suas influências parkerianas e ao mesmo tempo remete-nos para a sonoridade da “loft generation”, muito em especial a do altista Makanda Ken McIntyre, uma linhagem que não deixou muitos descendentes. Se já muitos indícios anunciavam tal desfecho, é com este disco que aquilo a que se vai chamando de free jazz faz definitivamente as pazes com a tradição.

AUM057

Darius Jones Trio Man’ish Boy (A Raw & Beautiful Thing)

Darius Jones saxofone alto
Cooper-Moore
piano, diddley-bo
Rakalam Bob Moses
bateria

O nome de Darius Jones já vinha sendo muito pronunciado de boca para orelha, mas fora os préstimos que foi gravando como “sideman” (de William Hooker, Mike Pride e Trevor Dunn, por exemplo) e os seus concertos em trio com Adam Lane e Jason Nazary no outro lado do Atlântico – trio esse que, por sinal, surge na faixa bónus deste CD, “Chaych” – não havia um documento em que protagonizasse um projecto seu e no qual encontrássemos totalmente expostas as suas próprias ideias. Eis, finalmente, que chegou esse disco, o seu primeiro como líder. Com o apoio de Cooper-Moore no piano e num instrumento da invenção deste que se parece muito com um baixo eléctrico, o diddley-bo, e de Rakalam Bob Moses na bateria, o que encontramos em “Man’ish Boy” é uma muito agradável surpresa. A cada passo denunciando as suas origens sulistas (é natural da Virginia), o que implica perspectivas bastante diferentes das vigentes nas cenas de Nova Iorque ou de Chicago, Jones apresenta uma música de grande frescura, com toda a evidência na esteira do Ornette Coleman da década de 1960, mas abrindo-se para o desconhecido. O que quer dizer que, num livro de história, o do free jazz, em que pouca inovação verdadeiramente se tem registado nos últimos anos, ele acaba de acrescentar uma nova página.

thecore_new.red

The Core & More Vol. 1 The Art of No Return

Jørgen Mathisen saxofone tenor e clarinete
Jonas Kullhammar saxofone tenor
Vidar Johansen
saxofone barítono, clarinete baixo e composição
Magnus Broo trompete
Erlend Slettevold
piano
Steinar Raknes contrabaixo
Espen Aalberg
bateria

Se os noruegueses The Core estavam a tornar-se num caso incontornável do novo jazz escandinavo, estes dois discos consagram-nos como uma das bandas maiores do momento não só no Norte da Europa como em todo o continente. O duplo “Goronka Love” inclui extractos de três concertos realizados na Polónia entre 2007 e 2008, alguns dos temas ainda com a participação do saxofonista Kjetil Moster, outros com o seu substituto, o muito jovem – e surpreendente – Jorgen Mathisen. A matriz está no jazz modal do Coltrane tardio, mas a presença de um Fender Rhodes e o recurso às rítmicas “groovy” do funk e à energia do rock lembram o Miles Davis electrificado, sem o copiarem. A estrela da formação é indubitavelmente Erlend Slettevoll, que com o seu traficadíssimo piano eléctrico seria capaz, sozinho, de levantar qualquer audiência das cadeiras. Acontece, porém, que a base pulsativa constituída pelo contrabaixista Steinar Raknes e pelo baterista Espen Aalberg não se deixa eclipsar: o “drive”, a força e o delírio até desta música começa por eles. E quanto aos saxofones é o que se ouve: Moster identifica liberdade com pujança e Mathisen entende-a como um convite à argumentação – e note-se que mais pela divergência do que pela retórica. Se neste álbum o convidado especial é o DJ Lenar, o qual está muito longe de ter funções decorativas, em “The Art of No Return” o quarteto, já com Jorgen Mathisen plenamente estabelecido como membro permanente, conta com as preciosas contribuições de Vidar Johansen, Jonas Kullhammar e Magnus Broo. A suite interpretada é da pena do primeiro, e mais uma vez se evidencia a referenciação em Miles. Não o do período coberto pelo anterior título, mas o que teve a colaboração de Gil Evans em obras de fundo como “Miles Ahead”. O registo é totalmente distinto, com muita orquestração (são sete os músicos, mas parecem por vezes mais), uma maior subtileza de conteúdos, menos lastro para improvisos individuais e uma sonoridade integralmente acústica, com um piano de cauda no lugar do instrumento de que se disse cobras e lagartos quando surgiu em cena. Mas não se pense que o resultado é menos intenso e galvanizante. O que aqui temos são as duas faces de uma mesma moeda. Uma moeda de ouro, acrescente-se.

daxxx2xx_marylandlive

Maryland Live!

Maria Kannegaard piano
Håkon Kornstad
saxofone tenor
Ole Morten vågan
contrabaixo
Håkon Mjåset Johansen
bateria

As abordagems musicais de Maria Kannegaard sustentam-se fortemente na tradição pianística do jaz, mas é com uma situação abstracta que abre esta gravação ao vivo realizada na edição de 2008 do Vossa Jazz Festival. Quando o tema da primeira faixa tem exposição, o que é logo confirmado pela segunda peça do disco, percebêmo-la alinhada com os conceitos composicionais do presente jazz americano, especialmente preocupado com a sugestibilidade melódica. Mas a receita aplicada não se fica por aí, e depressa percebemos que este é mais um produto da particular criatividade escandinava. Alternam-se situações de intensidade expositiva e de lirismo intimista, numas e em outras a pianista indo de síncopes monkianas aos refinamentos construtivos aprendidos em Bill Evans, no interim transparecendo por vezes os rasgos improvisacionais que deram fama a Jarrett. Assim, se os formatos são pacíficos, porque em plena conformidade com os padrões estabelecidos, é o que vai acontecendo dentro deles que eleva a qualidade desta proposta. A qual, volta e meia, nos surpreende e desarma, seja pela oportunidade e pela imaginação de uma determinada figura subitamente introduzida ou devido à excelência técnica das execuções de Kannegaard, com a vantagem de estas nunca resultarem em exibições de virtuosismo. Nos Maryland desta dinamarquesa radicada na Noruega destaca-se o saxofonista Hakon Kornstad. Mais conhecido pelo seu percurso no jazz electrónico, o também mentor dos Wibutee dá nestas faixas dimensão poética a uma música que sabe swingar.

Novas edições Clean Feed

CF159

Nobuyasu Furuya Trio Bendowa

Nobuyasu Furuya saxofone tenor, clarinete baixo e flauta
Hernani Faustino contrabaixo
Gabriel Ferrandini bateria

Nascido no Japão, mas vivendo entre Berlim e Lisboa, Nobuyasu Furuya está a agitar as águas do jazz e da música improvisada em Portugal seja com o seu sopro possante no saxofone tenor, lembrando as cascatas de som de Archie Shepp e Peter Brotzmann, ou com um controlo de energia e um rigor, sobretudo na flauta e no clarinete baixo, que nos remete para as cerimónias de chá, as árvores bonsai e os jardins de pedra do Japão. Na sua juventude um aprendiz de cozinha num templo budista Zen, Furuya começou por tocar música barroca europeia, mas cedo o free jazz centrou os seus interesses musicais. Também compositor de cena, tocou ainda em bandas noise e ska-core. Durante algum tempo, este multi-instrumentista de invulgares talentos estudou a música clássica otomana da Turquia, e essa experiência influenciou as suas futuras opções. No trio português de Nobuyasu Furuya encontramos o contrabaixista Hernâni Faustino e o baterista Gabriel Ferrandini, ambos músicos que tocam com as entranhas e o cérebro, uma combinatória não muito comum. O que se ouve neste “Bendowa” – o título de um livro escrito no século XIII por Dogen, o monge que fundou o Soto Zen – tem tudo para nos surpreender. “Toco porque tenho algo a dizer: pode ser silêncio e murmúrio, ou pode ser grito”, diz Furuya.

CF158

Júlio Resende Assim falava Jazzatustra

Júlio Resende piano
Perico Sambeat saxofone alto
Ole Morten Vagan contrabaixo
Joel Silva bateria
Desidério Lázaro saxofone tenor (tema 6)
João Custódio contrabaixo (tema 3)
Manuela Azevedo voz (tema 3)

Depois do sucesso do seu disco de estreia, “Da Alma”, vem a confirmação do elevado estatuto conseguido em apenas um par de anos pelo jovem pianista e compositor Júlio Resende com um segundo projecto, “Assim Falava Jazzatustra”. O quarteto base que lidera inclui o saxofonista alto espanhol Perico Sambeat, o contrabaixista norueguês Ole Morten Vagan e um baterista “da casa”, Joel Silva, mais alguns convidados nacionais: dois com crescente notabilidade no jazz, Desidério Lázaro no saxofone tenor e João Custódio no contrabaixo, e uma proveniente da pop, a cantora Manuela Azevedo (Clã). Neste opus, Resende propôs-se a si mesmo, e aos restantes participantes, que recusassem nas suas abordagens musicais tudo o que pudesse esconder ou alienar os seus estilos pessoais, na procura da maior autenticidade possível. No seguimento desse princípio, o grupo lida apenas com composições originais. Uma só excepção confirma tal regra: a muito curiosa versão “jazzy” de um clássico do rock, “Shine on You Crazy Diamond”, dos Pink Floyd. Ainda que o nome de Júlio Resende se destaque, todas as contribuições se revelam fundamentais. Ou não fossem Sambeat uma figura de topo da cena espanhola, seja adoptando o formato pós-bop ou fórmulas mistas de flamenco e jazz, Vagan um herdeiro do estilo de Charles Mingus requisitado por importantes nomes como Jonas Kullhammar e Bugge Wesseltoft, e Silva um dos novos valores da bateria em Portugal. A resultante música é fresca, ligada à tradição mas indo para além dela, sempre com soluções surpreendentes. Um feito em qualquer parte do mundo.

CF156

Pinton/Kullhammar/Zetterberg/Nordeson Chant

Alberto Pinton saxofone baritono e clarinete
Jonas Kullhammar saxofone tenor e baritono
Torbjorn Zetterberg contrabaixo
Kjell Nordeson bateria

O jazz ganha novas aberturas com este quarteto vindo da Suécia. A música adopta as gramáticas históricas do bop e da “new thing”, mas daí cresce um forte apetite pelo futuro. A energia e a forma são as mais importantes coordenadas musicais do projecto Chant, e o sentido de equilíbrio com que a banda articula estruturas compostas e improvisação, inspirando-se no jazz americano dos anos 1950 e 60, e muito especialmente na estética da Blue Note, está muito em evidência. Esta particular associação de músicos foi proposta pelo patrão da Clean Feed, Pedro Costa, e a sua primeira apresentação pública decorreu numa série de três concertos em Coimbra, durante a edição de 2008 do Jazz ao Centro – é o registo ao vivo desses concertos que encontramos aqui. Os músicos envolvidos representam o melhor que podemos encontrar na cena escandinava. Nascido em Itália, mas radicado em Estocolmo, Alberto Pinton é, sem dúvida, um dos mais importantes saxofonistas barítono do Velho Continente. Continuando as pisadas de Sonny Rollins, Jonas Kullhammar toca o saxofone tenor com garra, um som redondo e uma imaginação inesgotável. Torbjorn Zetterberg pode ser mingusiano no estilo, mas tem uma visão muito pessoal do papel a desempenhar pelo contrabaixo. O baterista Kjell Nordeson tem credenciais que sobram como um livre-improvisador, mas também sabe como swingar. Com uma elegância caracteristicamente europeia e um “drive” americano, “Chant” tem a particularidade de não confundir urgência com simplificação. Cada ideia é explorada até ao limite e esse factor exploratório faz maravilhas.

CF155

Zé Eduardo Unit Live in Capuchos

Zé Eduardo contrabaixo
Jesus Santandreu saxofone tenor
Bruno Pedroso bateria

CF154

Weightless A Brush With Dignity

Alberto Braida piano
John Butcher saxofone tenor e soprano
John Edwards contrabaixo
Fabrizio Spera bateria

Os artistas e os intelectuais britânicos têm um antigo fascínio pela cultura italiana, e por sua vez os italianos apreciam a forma como são vistos por escritores, poetas, pintores e cineastas da Inglaterra. É esse, inevitavelmente, o contexto deste esforço colectivo entre John Butcher e John Edwards, de um lado, e Alberto Braida e Fabrizio Spera, do outro. Raras vezes podemos encontrar Butcher num combo convencional com um saxofone à frente e uma secção rítmica de piano (o mesmo do quarteto de John Coltrane no início dos Sixties), mas que não haja qualquer equívoco: este não é o tipo de jazz para ouvir como fundo numa festa. A música contida em “A Brush with Dignity” exige a nossa total atenção, não por ser difícil (pode sê-lo algumas vezes, mas quem espera que a boa música seja “fácil”?), mas porque é intensa e necessita de ouvidos abertos, tempo e disponibilidade para ser usufruida. O que encontramos neste CD é inteiramente improvisado, mesmo que pareça composto com meticulosidade. Sem contradições de maior: é isto que fazem os mestres da improvisação, e todos estes quatro são especialmente dotados na sua arte. Não há um líder nem organização hierárquica, tudo acontecendo ao longo de um fluxo colectivo, e é por isso que os créditos vão para um grupo, Weightless de nome. Nenhum dos intervenientes tenta sequer iniciar uma “ego-trip”: esta é uma sociedade de iguais. O ouvinte fica mergulhado na magia da criação espontânea, com a consciência mantida alerta para poder apreciar cada surpresa que vai acontecendo.

CF152

Charles Rumback Quartet Two Kinds of Art Thieves

Greg Ward saxofone alto
Joshua Sclar saxofone tenor
Jason Ajemian contrabaixo
Charles Rumback

Novos discos da Intakt

INTAKT

152booklet_144.inddbooklet_146.indd148

145160150154

162booklet_155.inddbooklet_156.inddbooklet_159.indd

jpSP

Jeff Parker / solo

A Summer Party da Trem Azul Jazz Store terá este ano como protagonista uma das mais emblemáticas figuras da cena musical
interestilística de Chicago, Jeff Parker. A 5 de Agosto, pelas  21:30 horas, o guitarrista vai mostrar por que motivo está envolvido nos projectos mais díspares, indo do hard bop e do avant jazz ao experimentalismo electroacústico, com passagem pelo rock, o hip-hop, o dub ou a música de câmara. Na Chicago Underground Orchestra de Rob Mazurek ou nos Tortoise, colaborando com Ken Vandermark ou ao serviço de George Lewis, este é um singular músico que, apesar de multifacetado e extremamente flexível, tem uma voz e um som que são apenas seus.

´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´´
21h30 – ENTRADA LIVRE

De 31 Julho a 31 de Agosto

exposição dolphy

A casa do Jazz

O Carlos Miguel é arquitecto. Não sei o que nele começou primeiro: a paixão pela arquitectura, pelos desenhos e pela pintura é antiga, mas o Jazz é também um persistente enamoramento. Nele o Jazz, a arquitectura, o desenho e a pintura convivem como amigos de sempre. Os desenhos e as pinturas que agora nos mostra testemunham esta forte amizade. E esta mostra é, sobretudo, uma festa de amigos: uns, estoicamente fixados na parede, não sendo deste mundo, são eternos; os outros somos nós, os que aqui nos reunimos à volta desta música tão livre como a liberdade. O Carlos Miguel trouxe para esta festa alguns dos músicos que passam a vida lá em casa. Nós, os amigos, aqui estamos, para com ele partilharmos a alegria e o sentimento que o Jazz nos transmite.

José Teófilo Duarte

summer

Durante o mês de Agosto a Trem Azul Jazz Store vai abrir às 12h00 e encerrar às 19h30.
Segunda a Sábado 12h00 às 19h30
Domingos e feriados estamos encerrados.

Concerto

Cacto + Shiori Usui

15 Julho às 19h30

c-w

Os CACTO são um projeto de Ricardo Jacinto e Nuno Torres. Um encontro que remonta ao ano de 2003 e que finalmente vai trazer a sua obra às prateleiras das lojas (a partir de 12 de Setembro ) atravês da edição do seu 1º disco. Uma edição  limitada em vínil de belo recorte. No concerto da Trem Azul fazem-se acompanhar pela versátil Shiori Usuri uma compositora Japonesa que empresta aqui os seus dotes vocais aos sons texturais dos Cacto. Esta colaboração tenciona, também, vir a resultar numa futura edição. Nuno Torres saxofone alto Ricardo Jacinto violoncelo e Shiori Usui voz

entrada 3 euros

41KEocMu9CL._SS500_

Mary Halvorson Trio  Dragon’s Head

Depois de duos com Jessica Pavone e Kevin Shea, eis que a guitarrista dos mais recentes ensembles de Anthony Braxton e Taylor Ho Bynum surge a liderar o seu próprio trio. Como seria de esperar do trajecto que já tem, a sua música é angular, quebrada, atonal e dissonante, frequentemente nela se incorporando as distorções e o “feedback” do rock. A abordagem que Mary Halvorson tem da guitarra está, no entanto, muito distante desse género musical: o seu jogo de dedos é limpo, por vezes até seco, e faz lembrar o “finger-picking” e os “pianismos” de músicos como Joe Morris e Elliott Sharp: é pontilhístico, cerrado, mas simultaneamente muito feminino, utilizando tempos estranhos, mas também alguma pulsação quando necessário. Com o apoio rítmico de John Hebert no contrabaixo e de Ches Smith na bateria, a abstracção é o seu domínio, mas daí surgem inesperadas figurações que ancoram as suas propostas muito evidentemente no jazz. Em algo com esta intensidade, surpreende ainda o cuidado que o trio dá aos espaços e às dinâmicas. Muito bom, e como tem sido comentado pela crítica especializada, talvez o princípio do que aí vem no que ao instrumento de seis-cordas se refere.

___________________________________________

byzantine_monkey2

John Hebert  Byzantine Monkey

Nasceu em New Orleans e cresceu em Baton Rouge este contrabaixista que pertenceu ao último grupo de Andrew Hill e se tornou numa presença constante do jazz progressivo que hoje se pratica em Nova Iorque, cidade onde tem a base da sua actividade. Foi aí que formou o sexteto deste “Byzantine Monkey”, o primeiro disco como líder de John Hebert, com músicos locais como Tony Malaby, Michael Attias, Adam Kolker, Nasheet Waits e Satoshi Takeishi. Muito evidente nestes temas de grande variedade tímbrica e dimensão quase orquestral (sete instrumentos de sopro, dois percussionistas e o contrabaixo como eixo de tudo o que acontece) está a influência da música cajun e uma perspectiva composicional que passa pela tradição do jazz, pela vertente de câmara deste e ainda pela vanguarda formatada pelo free. Uníssonos de efeito impactante, engenhosos contrapontos, complexas texturas e polirritmos imaginativos são apenas alguns recursos de uma escrita inteligente e nunca óbvia, colocada ao serviço das superiores capacidades de todos os intervenientes. A improvisação é sempre condicionada pela partitura, mas torna-se claro que este álbum tem o propósito de apresentar uma faceta de Hebert que habitualmente está em segundo plano: a de compositor. Se já lhe reconhecíamos os dotes performativos, ficam aprovados os de criador de mundos sonoros.

___________________________________________

jim

The Fully Celebrated Drunk on the Blood of the Holy Ones

O sétimo álbum do trio de Boston formado por Jim Hobbs, Timo Shanko e Django Carranza representa um virar de página na plena utilização das técnicas de estúdio: ao longo das suas faixas ouvimo-los a aplicar os procedimentos do dub, num jazz já por si marcado, aqui ou ali, pelas sonoridades jamaicanas. A atmosfera geral é a das “soundtracks” dos filmes policiais de série B e dos bares de “strip-tease” e a atitude é caracteristicamente punk. A música vai beber ao hard bop mais suado, mas evidencia o legado de Ornette Coleman na fase Prime Time. Pelo meio ouvimos ora os multifónicos e os microtonalismos mais experimentais dos saxofones alto e soprano de Hobbs, ora sustentações rítmicas “funky” por parte do contrabaixo de Shanko e da bateria de Carranza. Uma característica do grupo é mesmo o seu ecletismo, cada tema adoptando elementos de idiomas distintos, dos blues a alusões ao Oriente profundo. O álbum inclui um vídeo em que também participa o cornetista Taylor Ho Bynum, um bónus que evidencia o quanto estes Fully Celebrated pretendem dirigir-se a um público que habitualmente ouve rock – aliás, é geralmente o circuito dos clubes daquele que frequentam, sem que ninguém lhes atire garrafas de cerveja. Compreende-se: à energia e à entrega desta música ninguém consegue ficar indiferente.

___________________________________________

516xC8AajDL._SS400_

Steve Lehman Octet  Travail, Transformation, and Flow

Figura cada vez mais incontornável do novo jazz de Nova Iorque, Steve Lehman tem aqui o seu primeiro manifesto do estudo a que vem procedendo da aplicação dos recursos harmónicos do espectralismo no jazz, segundo as perspectivas do compositor contemporâneo Tristan Murail, de quem foi aluno. Se tal demanda podia fazer-nos temer algum eruditismo, uma segunda surpresa é-nos reservada: a construção rítmica dos temas vai beber às músicas de dança, do hip-hop ao drum ‘n’ bass. O figurino surge-nos no legado das posturas M-Base, mas vai mais longe. A secção de sopros comporta cinco elementos, para além do líder e saxofonista alto o tenor Mark Shim, o trompetista Jonathan Finlayson, um seu habitual companheiro de lides, o trombonista Tim Albright e o tubista Jose Davila, este com funções geralmente rítmicas, em reforço do trabalho de contrabaixo de Drew Gress. Chris Dingman no vibrafone e Tyshawn Sorey na bateria são os restantes contribuintes, o primeiro com muito interessantes funções de coloração, por vezes com intervenções que parecem electrónicas, e o último responsável pelas panorâmicas “groovy” operadas. Num universo composicional conotável com o bop, o enfoque desta proposta na harmonia faz-se por meio de desafiantes incursões pelo microtonalidade – em vez de seguir uma lógica de intervalos, como é tradição no jazz, Lehman joga com as confluências e com os choques de frequências. A prova provada de que ainda vai havendo inovação no jazz.

____________________________________________

cf147

Daniel Levin Quartet Live at Roulette

Por vezes, apenas a mudança de instrumentação num combo convencional é o suficiente para tocar uma música totalmente diferente. No caso do Daniel Levin Quartet desde logo se nota a inexistência de um “kit” de bateria, e se pensa que tal facto anuncia algum tipo de jazz de câmara (reafirmado pela presença de um violoncelo), coloquemos as coisas a claro desde o início: não é verdade. E Levin ainda torna as coisas mais complicadas: definiu os papéis de cada interveniente na música – o trompetista Nate Wooley, o vibrafonista Matt Moran, o contrabaixista Peter Bitenc e ele próprio no “cello” – com o exclusivo propósito de ignorar as predefinições estabelecidas. Assim sendo, não encontramos neste grupo uma secção rítmica formal e os dois instrumentos melódicos não estão necessariamente “à frente”. É necessário acompanhar os trajectos individuais no todo musical sem esperar encontrá-los nos lugares habituais. Só assim é possível seguir o rasto das conversações desenvolvidas, bem como os pequenos jogos de tensão criados. Tudo se move, como numa composição de Morton Feldman, com a diferença de que os elementos de surpresa são proporcionados pela improvisação. Encontram-se reminiscências da third stream, do cool e do free jazz do início dos Sixties, mas apenas como tijolos para a construção de uma música inteiramente do nosso tempo. Talvez ainda não esteja aqui o próximo paradigma, mas certamente que anuncia “the shape of jazz to come”.

____________________________________________

cf149

Trespass Trio …Was There to Illuminate the Night Sky…

Estes são tempos difíceis para ser um idealista no que respeita à função social da música. Será a arte dos sons realmente capaz de mudar o mundo, algo em que muitos acreditaram nos anos 1960 e 70? Nenhuma resposta podia ser clara e definitiva num estado de coisas, como o presente, em que a alienação parece anacronicamente resultar do crescente acesso à informação, mas o certo é que o saxofonista sueco Martin Kuchen toca com uma mensagem. Ou ouvimos esta ou não, mas o certo é que as linhas de sax que encontramos em “…Was There to Illuminate the Night Sky…” têm um carácter de urgência e um cometimento que tornam o Trespass Trio num “must”. Ingebrigt Haker Flaten e Raymond Strid podem ser menos “políticos” do que o seu parceiro, mas estão totalmente envolvidos na luta que nos alerta para a escondida e triste realidade existente por detrás da só aparente calma das nossas vidas diárias numa qualquer cidade ocidental. Há sempre, algures, uma guerra com os seus milhares de vítimas, ou algum ponto do globo onde a repressão, o racismo e a injustiça são práticas correntes, e estes factos colocam sérios dilemas morais a cada um de nós. O que pode um músico fazer senão criar com estes factores em mente? Aqui está, pois, um disco que ferve, é duro e transborda de raiva, gravado não para nosso entretenimento, mas para nos desafiar os ouvidos e as consciências. Não há meio termo: ou gostamos, ou encolhemos os ombros. Quem lhe for indiferente é que fica a perder.

Mensagens Antigas »