Novidades discográficas

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Jorrit Djikstra Flatlands Collective Maatjes (Clean Feed)

Jorrit Dijkstra saxofone alto, sintetizador

James Falzone clarinete

Jeb Bishop trombone

Fred Lonberg-Holm violoncelo, electrónicas

Jason Roebke contrabaixo

Frank Rosaly bateria

Depois de estabelecer o seu nome na rica cena do avant jazz e da improvisação livre da Holanda, e agora radicado em Boston, o saxofonista e manipulador de electrónica Jorrit Djikstra está a tornar-se numa das mais interessantes vozes da presente música criativa americana. Com o Flatlands Collective, tem como parceiros alguns dos melhores músicos de Chicago: James Falzone, Jeb Bishop, Fred Lonberg-Holm, Jason Roebke e Frank Rosaly. “Maatjes” pode bem ser o mais o mais “jazzy” dos discos de Djikstra, mas encontramos nele os conceitos que tornaram a sua música tão única: um refinado trabalho textural colectivo reminiscente da mais radical música não-idiomática europeia mistura-se com as células rítmicas repetitivas inspiradas nas composições minimalistas de Steve Reich e Terry Riley, bem como com melodias que resultam de um particular cuidado com o timbre, o contraponto e o lirismo da expressão, não muito longe da tradição do cool jazz. “Overtones” e camadas de som, utilizando o lyricon, instrumento de sopro electrónico dos anos 1970, e dispositivos analógicos como uma máquina de “loops” e alguns “delays”, surgem numa música feita de espaços e de uma grande variedade de cores, referenciadas na muito particular pintura holandesa. A perspectiva é inovadora, mas com raízes na história do jazz. Altamente recomendável.

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Steve Adams Trio Tension Surface (Clean Feed)

Steve Adams saxofone sopranino, alto, tenor, baritono e flauta baixo

Ken Filiano contrabaixo

Scott Amendola bateria

Membro do muito reconhecido Rova Saxophone Quartet, o saxofonista e flautista Steve Adams desenvolve os seus projectos pessoais nos campos do jazz e da música contemporânea com iguais elogios por parte dos media e dos ouvintes. O seu trio com Ken Filiano (contrabaixo) e Scott Amendola (bateria) é um dos melhores exemplos que podemos encontrar actualmente da improvisação de grupo, com peças tocadas espontaneamente mais parecendo que foram compostas. Algo que só é possível quando há um sólido conceito por todos partilhado e talentos fora do vulgar para o conseguir com rigor, mas também suficiente flexibilidade para criar música que é mais, muito mais, do que a combinação das diferentes partes. Nas suas “liner notes” para “Tension Surface”, Adams escreve sobre “a química misteriosa mas vital que é decisiva para fazer com que música como esta aconteça”, o que é bem verdade. Não é possível explicar por palavras o tipo de interacção que se consegue neste disco – só ouvindo podemos acreditar. Quando os três músicos interpretam partituras escritas, temos a situação inversa: a música é tão orgânica e fluida que se julgaria improvisada, e essa circunstância clarifica que estamos na presença de músicos extraordinários. Façam um favor a vocês mesmos e dediquem algum tempo a esta tensa, sem dúvida, mas também libertadora música da linha da frente do jazz de hoje.

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Tony Malaby Cello Trio Warblepeck (Songlines)

Tony Malaby saxofone tenor e soprano

Fred Lonberg-Holm violoncelo, electrónicas

John Hollenbeck bateria, marimba, xilofone e melodica

Quem segue a intensa produção discográfica independente do jazz de hoje não terá deixado de reparar no número de vezes que Tony Malaby esteve recentemente em estúdio. Ouvimo-lo em “Tamarindo”, depois com a sua mulher, Angelica Sanchez, em “Life Between”, e também no primeiro disco (“Ecstasis”) em nome próprio de Ben Stapp, tubista da Califórnia que viveu entre nós alguns anos. Pelos palcos de Portugal passou duas vezes em 2008, com Michael Attias e inserido nos Open Loose de Mark Helias. Retomamos agora o contacto com este grande saxofonista em “Warblepeck”, e mais uma vez nos cativa com a elasticidade e a superior qualidade das suas prestações. Neste álbum até com maior força de razão, pois encontramo-lo em contextos musicais bastante desafiantes – e se o são em termos auditivos, só podemos imaginar o quanto lhe terão sido enquanto performer. Alinhado num pós-bop respeitoso da tradição mas que não desdenha as liberdades expressivas, o seu Cello Trio (com Fred Lonberg-Holm e John Hollenbeck) permite-lhe que se aventure mais em terreno pouco cartografado para quem pratica a improvisação nos Estados Unidos, país em que os processos improvisacionais se identificam de imediato com o idioma jazz.

Sem nunca renegar as suas origens e o seu estilo pessoal, Malaby tem aqui aquele que será o seu disco mais arrojado de sempre, por vezes entrando mesmo em domínios que identificamos com a música improvisada europeia. E sai-se da incursão com o mesmo brilhantismo de que deu provas em outras abordagens para ele mais seguras. Só um músico de capacidades efectivamente superiores o poderia fazer, e sem dúvida que este é um dos mais interessantes da actualidade. É certo que para este projecto escolheu a melhor das companhias: com Ken Vandermark (Vandermark 5, Territory Band), com Peter Brotzmann (Chicago Tentet e o recente duo gravado em “The Brain of the Dog in Section”) ou ainda com Carlos “Zíngaro” (e Lou Mallozzi, no Punctual Trio) e em outras realizações (um par delas, notáveis, a solo), Lonberg-Holm tornou-se num dos avatares, senão no mais referencial, do violoncelo “progressivo”, assim como Hollenbeck se firmou como um dos mais inventivos e originais percussionistas e compositores de além-mar, como testemunhamos com o Claudia Quintet, agrupamento que alia jazz, música de câmara, experimentalismo e “lounge” com a maior das naturalidades.

Além da grande abertura composicional (os temas são do próprio Malaby, de Angelica Sanchez, de Bill Frisell e de Eivind Opsvik), de arranjos e de improvisação, seja colectiva como a solar, o que de imediato se destaca neste disco é a variedade tímbrica e textural, parecendo que são mais de três os músicos envolvidos. John Hollenbeck contribui decisivamente para tal com a incorporação da marimba, do xilofone e do glockenspiel no seu “set” percussivo, bem como com um uso bem mais do que decorativo da melódica, e Fred Lonberg-Holm dedica-se a extender as possibilidades do seu instrumento, por meio de técnicas inovadoras, preparações móveis e processamentos analógicos. Mas até o tenor e o soprano de Tony Malaby trocam de papéis ao longo da acção, ora com registos “hard” e “soft”, ora entrando e saindo na/da tonalidade, ora adoptando um desempenho melódico e mergulhando em dissonâncias e abstraccionismos frásicos. Nada está excluído à partida e nenhuns interditos existem. Pode até surpreender-nos que peças como “Waiting Inside” e “Jackhat 1” estejam no mesmo CD, mas são estes contrastes que fazem as delícias de “Warblepeck”

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