Editora da Downtown Music Gallery disponível na Trem Azul

Selwyn Lissak Friendship Next of Kin / Facets of the Universe

Mongezi Feza trompete

Mike Osborne saxofone alto

Kenneth Terroade saxofone tenor, flauta

Harry Miller contrabaixo

Earl Freeman contrabaixo, piano, voz

Selwyn Lissak bateria

Louis Moholo percussão

Quando se fala dos “free-jazzers” sul-africanos que se exilaram em Londres e contribuíram para o “boom” da improvisação em terras britânicas, é habitual esquecer um nome, o de Selwyn Lissak. A justificação está no facto de o baterista ter apenas gravado dois discos antes de trocar a música por uma carreira artística na área da escultura holográfica, sendo que apenas um deles foi em nome pessoal e teve edição numa subsidiária da francesa BYG/Actuel, a Goody. Pois foi esse álbum de 1969, um dos que Thurston Moore (Sonic Youth) colocou na sua lista de preferidos do free jazz original, que a DMG Arc em boa hora reeditou. Com Lissak estão três outros refugiados do Apartheid, Mongezi Feza (trompete), Harry Miller (contrabaixo) e Louis Moholo (percussão), um inglês, Mike Osborne (saxofone alto), um jamaicano, Kenneth Terroade (saxofone tenor, flauta) e um norte-americano, Earl Freeman (piano, contrabaixo, voz). “Friendship Next of Kin” ganhara uma aura de “obra perdida”, tanto assim que só se encontravam raros exemplares do LP num par de lojas de coleccionadores e em leilões da Internet, a preços altíssimos, mas apesar da superior qualidade da música não se pode dizer que seja uma referência fundamental da New Thing. Se algo tem da característica visão sul-africana que os Blue Notes e a Brotherhood of Breath de Chris McGregor cunharam, os modelos perseguidos são os da música que na altura faziam Albert Ayler (o tema da faixa-título parece mesmo saído da estante do saxofonista) e a Arkestra de Sun Ra (influência particularmente evidente em “Facets of the Universe”). O especial interesse do CD decorre do facto de, com a sua existência, a história documental do free ficar mais completa. Este relançamento fez com que Selwyn Lissak aceitasse voltar a segurar num par de baquetas para um concerto em que teve a companhia de William Parker, Roy Campbell e Brice Winston, mas o desejado regresso está por se verificar. O que quer dizer que ainda não foi desta que voltou à casa do jazz um dos seus filhos desavindos.

Last Exit Live in Europe

Peter Brotzmann saxofones e clarinete

Sonny Sharrock guitarra

Bill Laswell baixo

Ronald Shannon Jackson bateria

Bem que Peter Brotzmann procurou recuperar um pouco da aura destes Last Exit com o projecto em que recentemente envolveu Marino Pliakas e Michael Wertmuller, mas o certo é que o supergrupo formado na década de 1980 possuía uma fórmula única e irrepetível, só entendível numa determinada conjuntura. Na continuação da vaga punk-funk-jazz iniciada pela Prime Time de Ornette Coleman, só podia ser explosiva a junção daquele que foi um dos protagonistas da chamada “estética do grito” surgida na Europa do Maio de 68 e do Baader-Meinhof com um dos raros guitarristas do free jazz, Sonny Sharrock, ainda para mais considerando a costela hendrixiana e “destroyer” que sempre caracterizou este, e com Bill Laswell, o baixista das formações de art rock Material e Golden Palominos, e Ronald Shannon Jackson, o baterista, precisamente, da mencionada Prime Time. Gravado ao vivo em concertos realizados na Suécia e na Alemanha no ano de 1989, este disco reeditado pela “label” da nova-iorquina Downtown Music Gallery recorda-nos os Last Exit no melhor enquadramento que podiam ter – o “live”. Selvagem, agressivo, “noisy” e com um irresistível fascínio pelo caos, este foi o free de depois do free, eléctrico e de fusão, tendo dado origem a muito do que depois aconteceu nas margens do jazz e do rock, dos Naked City aos japoneses Ruins. A morte de Sharrock condenou o grupo, mas a semente ficou e ainda vivemos as suas consequências. Os títulos das faixas (só alguns exemplos: “Lizard Eyes”, “Headfirst Into the Flames”, “Hanged Man Are Always Naked” ou “I Must Confess I’m a Cannibal”) são retirados de passagens de “The Journal of Albion Moonlight”, do poeta e pintor Kenneth Patchen, a quem chegaram a chamar St. Madman. Pois a música tem o mesmo grau de loucura, recuperando algum do visionarismo que tivera a No Wave uma década antes e indo mais fundo na exploração das semelhanças (!!!!) entre a facção hardcore do rock e a New Thing mais extremista.

The Stone Quartet DMG @ The Stone

Joelle Léandre contrabaixo

Marilyn Crispell piano

Roy Campbell trompete, flauta

Mat Maneri viola

Gravado no The Stone, o espaço dirigido por John Zorn em Nova Iorque, durante a edição de 2006 do DMG New Music Magic Mystery Festival, este álbum é o único documento de um quarteto “improvável” que junta a contrabaixista francesa Joelle Léandre, numa das suas raras aparições públicas na Big Apple, a três músicos americanos que, apesar da proximidade geográfica, não têm por hábito tocar juntos. Aliás, bem diferentes são os percursos de Marilyn Crispell, Roy Campbell e Mat Maneri, a primeira tendo adoptado uma abordagem pianística acentuadamente lírica, em contraste com a sua anterior discursividade tayloriana (chegou a dizer-se que era uma versão feminina de Cecil Taylor), o segundo desenvolvendo um free bop de cunho pan-africanista e o terceiro destacando-se pela forma como associa a linguagem jazzística com elementos do serialismo. Sabendo que a aparente líder do grupo, Léandre, não se considera uma executante de jazz, dividindo a sua actividade entre a interpretação de compositores eruditos e a improvisação livre, suspeita à partida quem coloca este CD no leitor que ou ouvirá o registo de uma sessão de experimentalismo improvisado ou de jazz de câmara. Embora nem uma, nem outra, mas ambas essas expectativas se confirmem, “DMG @ The Stone” lida mais com as coordenadas específicas do jazz do que poderíamos esperar, resultando pouco experimental e pouco camerístico, não obstante os níveis de abstracção e a introspectividade das construções. Como seria natural num primeiro encontro, muito do que aqui ouvimos é tentativo, mas quando os quatro músicos efectivamente “colam” a música consequente é de primeira água. A nós agrada-nos especialmente o que Crispell faz ao longo destas faixas e que é substancialmente distinto dos seus mais recentes títulos na ECM, não obstante repetir o despojamento das suas intervenções nos mesmos, mas se o objectivo de quem adquire este disco é conhecer o melhor que podem fazer Léandre, Campbell e Maneri, as escolhas terão de ser outras.

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