Novidades Clean Feed

Luís Lopes Humazination 4tet

Luís Lopes guitarra

Rodrigo Amado saxofone tenor

Aaron González contrabaixo

Stefan González bateria

Perguntem a qualquer improvisador. A primeira qualidade de um músico que improvisa é a sua Capacidade para comunicar com as outras pessoas. A música improvisada começa a acontecer ANTES que qualquer música seja tocada, e um músico que não consegue comunicar com os outros fora do palco ou do estúdio certamente que não conseguirá fazê-lo também a criar música inserido num colectivo. Essa qualidade encontramo-la nos quatro membros desta formação – interagem uns com os outros com alegria e cometimento, e sabem transmitir essas boas vibrações aos seus ouvintes. Vindo de um “background” no rock e nos blues – com toda a evidência, o seu “herói” é Jimi Hendrix –, cedo o guitarrista Luís Lopes se interessou pelo jazz aberto, e isso quer dizer que nunca quis, simplesmente, interpretar os “standards” do jazz. Em vez de abraçar as convenções, preferiu lidar directamente com a improvisação. Em consequência, o seu trabalho composicional concebeu-o para servir os talentos improvisacionais dos músicos que envolve nos seus projectos e não para os circunscrever em estruturas rígidas e pré-estabelecidas. Lopes é um entusiasta do desconhecido e entende a música exactamente da mesma maneira como enfrenta a vida de todos os dias: com genica, fé e predisposição. Os seus companheiros neste disco de estreia são o saxofonista Rodrigo Amado, um valor em ascensão na cena internacional do free bop depois de se ter estabelecido como um dos mais criativos executantes em Portugal, e a poderosa secção rítmica (daquele tipo que mantém a música a pulsar mesmo quando pensamos que já não há energia física para continuar a levar as coisas até ao pico) providenciada pelos irmãos Stefan e Aaron González, filhos do trompetista Dennis González e parceiros deste na banda Yels at Eels. Já podem imaginar os resultados: execuções intensas e criatividade aventureira. A música tocada pode por vezes atingir níveis de abstraccionismo, mas é sempre “groovy” e as melodias entram-nos no cérebro para lá se fixarem. Desafiamo-vos a ficarem indiferentes…

“Zíngaro” / Regeff / DeJoode Spectrum String Trio

Carlos “Zíngaro” violino

Dominique Regef sanfona

Wilbert DeJoode contrabaixo

O violinista português Carlos “Zíngaro” parece empenhado em reinventar a música de câmara através da improvisação. Considerando colaborações suas do passado que foram editadas em disco ou apresentadas nos palcos – em duo com Joelle Léandre, Dominique Pifarely, Peggy Lee, Peter Kowald, Derek Bailey e Dominic Duval; em trio com Tom Cora e o percussionista Roger Turner, com Fred Lonberg-Holm e o “bruiteur” Lou Mallozzi ou com Hans Reichel e o clarinetista Rudiger Carl; ou ainda em quarteto com Elliott Sharp, Tomas Ulrich e Ken Filiano… – evidente se torna que está especialmente interessado em investir em grupos de cordas ou em colectivos que tenham uma forte presença de cordofones. Por coincidência ou não, na edição de 2007 do Vision Festival, em Nova Iorque, “Zíngaro” foi um dos protagonistas, juntamente com Billy Bang, Mark Feldman e Dave Soldier, entre outros, de um concerto violinístico de homenagem ao falecido Leroy Jenkins. Tal torna a acontecer com o Spectrum String Trio, no qual o encontramos na companhia do sanfonista francês Dominique Regeff e do contrabaixista holandês Wilbert DeJoode. Algures entre os mundos do “avant-jazz” e da erudição contemporânea, com reminiscências da música antiga e do trovadorismo – para todos os efeitos, a sanfona tem origens medievais -, este novo CD confirma o músico lisboeta como um dos mais importantes executantes de cordas na presente improvisação internacional. Podemos mesmo referir a originalidade do seu mundo sonoro, resultante da influência cruzada de, por um lado, Paganini, Shostakovich e Bela Bartok, e de, por outro, Stuff Smith, Leroy Jenkins e, acredite-se ou não, Ornette Coleman, cuja “má” prática do violino constitui paraCarlos “Zíngaro” um óptimo exemplo de como combater o perfeccionismo virtuosístico imposto pelo academismo musical, coisa que não lhe interessa em absoluto. Este artista visionário e inconformista precisava de ter parceiros com perfis semelhantes, e o certo é que Regeff e DeJoode fazem parte dessa nobre linhagem, cada um deles um nome de topo da música criativa.

Michael Dessen Trio Between Shadow and Space

Michael Dessen trombone

Christopher Tordini contrabaixo

Tyshawn Sorey bateria

Quem disse que a música tinha de encontrar as suas referências nela mesma? Este CD do trio liderado pelo trombonista Michael Dessen inspira-se num poema escrito por Pablo Neruda, “Ars Poetica”, sendo “Between Shadow and Space” – título do álbum e da sua primeira peça – um dos seus versos. Tal particularidade repete-se em outras faixas: “Chocolate Geometry” resulta do gosto de Dessen pela arte conceptual e abstracta de Mariángeles Soto-Diaz, “Anthesis” alude à Botânica (é esse o nome do período de florescimento de uma planta) e “Granulorum”, mesmo que o músico não tenha pensado em tal quando formulou os muitos detalhes desta composição, lembra-nos a pintura miniatural em arroz da Coreia…Uma das poucas edições da Clean Feed a incluir o uso de electrónica (o computador é o segundo instrumento de Dessen), temos aqui um exemplo do melhor jazz electroacústico que hoje se faz, combinando a tradição afro-americana com a linhagem experimental vinda do século XX. Michael Dessen e seus pares – Chistopher Tordini no contrabaixo e Tyshawn Sorey na percussão – trabalham com grande sentido colectivo em dois planos, um temporal, com um “drive” fluido que salienta a natureza da música como arte do tempo, e o outro espacial, com um grão e uma organicidade notáveis, transpondo para o mundo dos sons aspectos habitualmente só explorados nas artes visuais. Activo na cena da Bay Area, este discípulo de músicos como George Lewis, Anthony Davis e Yusef Lateef tem um forte historial de colaborações com Mark Dresser, Vijay Iyer, Susie Ibarra, J.D. Parran, Marty Ehrlich e muitos mais, não sendo menos “rodada” a secção rítmica do Michael Dessen Trio, com Sorey a dever a sua boa reputação à forma subtil como aborda peles e metais, e com o jovem Tordini a abrir caminho como um contrabaixista com que se pode contar. Altamente recomendado.

Sten Sandell / Mattias Stahl Grann Musik

Sten Sandell piano

Mattias Stahl vibrafone/marimba

Memórias do duo histórico de piano e vibrafone de Sun Ra e Walt Dickerson são inspiradas por esta parceria de Sten Sandell e Mattias Stahl com os mesmos instrumentos (a que se juntam a marimba e o glockenspiel), mas em comum com o primeiro apenas encontramos a adopção do idioma jazz e dos processos improvisacionais. Na verdade, é muito distinto o vocabulário usado pelos dois músicos suecos: se a refinada sonoridade Blue Note de Dickerson, aquela que Andrew Hill tanto prezava, estava em combinação com o “jazz cósmico” do líder da Arkestra, agora é o pós-bop cubista de Stahl que ouvimos em associação com os largos parâmetros lexicais do pianista que conhecemos dos Gush de Mats Gustafsson, incluindo elementos provenientes de diversas origens, como a música clássica contemporânea europeia e a “new music” americana de John Cage, Henry Cowell, Morton Feldman e Iannis Xenakis, o rock progressivo na linha dos This Heat e dos Tuxedomoon, e as tradições étnicas do Norte da Europa, da Índia, do Japão e do Tibete, neste último caso aplicando as técnicas vocais budistas no seu uso da voz. Esta é uma combinação assaz curiosa: se a abordagem pianística de Sandell pode ser cerebral na sua extrema complexidade, mesmo nos momentos de maior espontaneidade (entre o lirismo de Paul Bley e o “free-flowing” de Cecil Taylor), Stahl é um vibrafonista muito físico, tendencialmente abstracto mas com um gosto especial pela coloração, criando empatias imediatas com o ouvinte. A música que tocam em conjunto resulta, precisamente, desses contrastes, tudo convergindo, como que por magia, em peças que parecem tão naturais como a água de um rio a cintilar à luz do Sol. “Grann Musik”, o título deste disco, significa em Português “Música de Vizinhança”, e o certo é que podemos perceber o grau de intimidade que dois bons vizinhos podem atingir após anos de convívio, por mais que as suas personalidades sejam distintas…

Kirk Knuffke Quartet Big Wig

Kirk Knuffke trompete

Brian Drye trombone

Reuben Radding contrabaixo

Jeff Davis bateria

Este pode ser um novo nome no circuito internacional, mas o trompetista Kirk Knuffke não será desconhecido dos fãs do jazz de todo o mundo durante muito tempo. Bastante trabalho tem ele desenvolvido para que venha a tornar-se, brevemente, num músico “falado”. A sua lista de colaborações já é de fazer inveja. Além de ser membro da Orchestra Slang de Butch Morris, da Nublu Orchestra, da Jeff Davis Band, dos Ideal Bread, dos No Truck e dos Wollesonic de Kenny Wollesen, tocou ao vivo ou gravou com nem mais do que Graham Haynes, Eddie Henderson, Daniel Carter, John Zorn, Tony Malaby, Dave Douglas, Briggan Krauss, Steven Bernstein, Sonny Simmons e outras figuras cimeiras do jazz criativo dos nossos dias. Além disso, poucos, como ele, podem referir nos seus currículos tão diferentes e prestigiados mestres quanto Ornette Coleman e Wynton Marsalis. “Big Wig” é o disco de estreia de Knuffke, e é um belíssimo disco. E se vocês ainda dividem o jazz entre o “mainstream” e a vanguarda, é melhor prepararem-se para o que vem dentro do CD: este músico nascido em Denver mas tornado nova-iorquino pode admirar o som e o fraseado de Lester Bowie (o que se nota!), bem como o trabalho composicional de Steve Lacy (toca num grupo exclusivamente dedicado a interpretar os temas do falecido saxofonista), mas também aprecia as ideias orquestrais swingantes de Thad Jones, há algo de Chet Baker na sua maneira de tocar e tem uma predilecção especial por, imagine-se, Pee Wee Russell e o seu clarinete “vintage”. “Aberto” e “straight-ahead” são adjectivos que podemos aplicar em simultâneo ao Kirk Knuffke Quartet – um não exclui o outro, tratando-se apenas de dois aspectos da mesma coisa. O grupo pode ser rigoroso, sim, mas também “rude e descuidado quando a música o pede”, tal como Kirk escreve nas “liner notes” deste álbum. Imperdível.

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