Spool na Trem Azul

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O catálogo da canadiana Spool já está disponível em Portugal. Com o nome inspirado numa passagem daquele que será o texto de Samuel Beckett mais estimado pelos musófilos, “Krapp’s Last Tape” (“Box . . . three . . . spool . . . five. ( he raises his head and stares front. With relish. ) Spool! ( pause. ) Spooool! ( happy smile. Pause. He bends over table, starts peering and poking at the boxes.”), a editora vem não só divulgando internacionalmente o jazz e a improvisação produzidos no Canadá, com especial incidência nas práticas mais avançadas da cena de Vancouver, como tem envolvido músicos de todo o mundo.

Apenas alguns exemplos:

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Mats Gustafsson / Kurt Newman / Mike Gennaro Port Huron Picnic (Spool) 

Mats Gustafsson saxofones soprano,  baritono e flauta

Kurt Newman guitarra eléctrica

Mike Gennaro bateria  

Encontro registado em Chicago no ano de 1999 entre o saxofonista sueco Mats Gustafsson e os membros do duo Wrist Error, Kurt Newman (guitarra) e Mike Gennaro (bateria, percussão), “Port Huron Picnic” é uma revisitação do particular universo de Derek Bailey, e muito em especial das suas parcerias com Evan Parker e com John Stevens. Sobre este disco, disse a revista “Cadence” na altura da sua edição que parece estarmos a ouvir “insectos a degladiarem-se sobre folhas de árvore caídas”, e é de facto isso o que nos sugere o trabalho textural realizado, mais preocupado com a matéria sonora propriamente dita do que com preocupações musicais, pelo menos se entendermos que a música implica sempre uma ideia de estrutura. Aliás, a única sugestão de forma aqui encontrável é a implicada pela sequencialidade dos eventos.

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John Shiurba Triplicate (Spool) 

Lara Bruckmann voz
Morgan Guberman voz
Matt Ingalls clarinete
Dan Plonsey saxofone alto, clarinete, oboe e violino
Tom Djill trompete
Tom Yoder trombone
Matthew Sperry contrabaixo
Gino Robair  percussão, marimba e sintetizador analógico
 

Algures entre o legado do “rock in opposition” de uns Henry Cow e a complexa escrita de Anthony Braxton, com “200 Motels” de Frank Zappa e a Mike Westbrook Orchestra pelo meio, “Triplicate” é uma quase ópera de homenagem a Matthew Sperry (o contrabaixista destas sessões que morreria antes da edição do CD), gravada em 2002. Com um percurso dividido entre a composição contemporânea (colaborou com a Merce Cunningham Dance Company), a improvisação livre ou com matriz no jazz (tocou com Braxton) e o art rock (integrou os grupos Eskimo e Molecules), o guitarrista John Shiurba é uma das figuras mais interessantes surgidas na West Coast norte-americana – com a característica de, aos seus evidentes dotes como compositor e líder, acrescentar os de um instrumentista de vocação exploratória. Destacam-se os cantores Lara Bruckmann e Morgan Guberman, este por vezes lembrando-nos Phil Minton.

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Henry Kaiser & Paul Plimley w/ Danielle DeGruttola Passwords (Spool) 

Henry Kaiser guitarra baixo e guitarra

Paul Plimley piano
Danielle DeGruttola violoncelo

Algo a que o guitarrista Henry Kaiser nos habituou foi a nunca adivinharmos o que um disco com o seu nome contém, a não ser a certeza de que será uma abordagem muito pessoal. Com um estilo que vai beber às mais diversas fontes, dos blues do Delta à música erudita do século XX, passando por um anorme fascínio pelas tradições asiáticas, pelo free jazz e pelo rock (é um apaixonado fã dos Grateful Dead), o californiano teve um percurso igualmente multifacetado, com parceiros tão distintos quanto Herbie Hancock, Terry Riley, Negativland, Cecil Taylor, Diamanda Galas ou Ryuichi Sakamoto. Ao verificarmos, porém, que neste “Passwords” tem a companhia de Paul Plimley, a suspeita é a de que se entregarão a um jazz sofisticado e com dimensões camerísticas. Ouvido o CD, de facto assim é: senhor de um estilo pianístico intimista e elaborado, à vontade também em situações mais rítmicas e ineditamente associando uma vertente lírica a outra geométrica, Plimley tem aqui oportunidade de brilhar. A tónica de câmara é amplificada pela associação da violoncelista Danielle DeGruttola.

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Fred Frith / Anne Bourne / John Oswald Dearness (Spool) 

Fred Frith guitarra e voz

Anne Bourne violoncelo e voz

John Oswald saxofone, voz 

Longe, muito longe, das suas origens rock, o Fred Frith que encontramos em “Dearness” é simultaneamente aquele que se tem revelado (a gravação ao vivo data de 1998) como compositor de recorte “clássico” e aquele que vingou como improvisador no sentido europeu do termo. Poucas vezes o músico britânico radicado na Califórnia associou essas duas vertentes no mesmo disco, e daí o especial interesse deste trabalho. A seu lado tem o antigo mestre dos “plunderphonics” John Oswald, entretanto convertido ao saxofone alto e à improvisação, e uma das mais aventurosas violoncelistas do outro lado do Atlântico, Anne Bourne. Nota curiosa: todos eles utilizam também a voz. Com um carácter de”soundscape” nada comum tanto no domínio da “new music” como no da chamada música não-idiomática, as atmosferas criadas mantêm ao longo das faixas uma aura de mistério e irresolução que torna intrigante, interrogativa mesmo, a sua audição.

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Fred Frith / Joelle Léandre / Jonathan Segel Tempted to Smile (Spool) 

Fred Frith guitarra

Joelle Léandre contrabaixo

Jonathan Segel violino e guitarra 

Já lá vai o tempo em que se considerava que os cordofones não tinham lugar na improvisação. Em“Tempted to Smile”, temos um curioso trio de cordas, com o guitarrista Fred Frith a fazer-se acompanhar pelo contrabaixo de Joelle Léandre e pelo violino de Jonathan Segel, este surgindo numa segunda guitarra em uma das peças. Se os fundamentalistas da chamada “nova música improvisada” apontavam como factor negativo a “doçura” inerente a este tipo de instrumentação, o presente álbum comprova que com o dito também se pode fazer uma música ácida e rude – a grande aspiração estética de uma prática musical que começou por arvorar o nome de uma abordagem técnica. Abstracto, orgânico e sempre em movimento, está patente neste registo que os intervenientes envolvidos vêm de outras músicas que não do jazz, entendido este geralmente como a matriz desta tendência (Frith e Segel passaram pelo art rock, Léandre é uma celebrada intérprete de música erudita contemporânea), mas nunca tal factor surge de modo referencial. Esse “background” é o suficiente, no entanto, para se perceber que há por aqui algum idiomatismo. Não podia ser de outro modo, apesar de Derek Bailey, o inventor da designação “música não-idiomática”, nunca o ter admitido, mesmo depois de tocar “standards” e baladas e de ter colaborado com músicos do rock e do drum ‘n’ bass.

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The Skronktet West EL (Spool) 

Morgan Guberman contrabaixo

Matt Ingalls clarinete

Gino Robair percussão
Scott Rosenbeg saxofones

John Shiurba guitarra  

O nome de Scott Rosenberg vem emergindo como um dos novos valores do jazz da frente americano que recupera a importância da composição, dos arranjos e da direcção de grupo. Tem-no feito com pequenos formatos instrumentais e com “big bands”, e para o que ele é hoje contribuiu sem dúvida este “EL”, gravado em 2001 com o Skronktet West, um quinteto “extensivo” que inclui figuras tornadas fundamentais na cena actual, como John Shiurba, Gino Robair, Matt Ingalls e Morgan Guberman. Pode ser que o seu estilo deva mais ao orquestralismo de câmara e sinfónico contemporâneo do que a Ellington, a Mingus e a Evans, mas o certo é que devolveu à vanguarda do jazz algo que o free lhe tinha retirado: estrutura. São muitos os espaços deixados à improvisação e ao critério dos intérpretes, mas o peso da escrita é óbvio nestes temas. Reflecte-se tal, neste disco, em termos de coordenação colectiva, de entrosamento e de rigor. Decididamente, o futuro do jazz “made in USA” está a ser decidido na Bay Area, e provavelmente até mais do que em Nova Iorque e em Chicago, não obstante os ouvidos estarem todos virados para essas metrópoles.

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Gordon Grdina’s Box Cutter Unlearn (Spool) 

Gordon Grdina guitarra

Francois Houle clarinete

Karlis Silins contrabaixo

Kenton Loewen bateria 

“Unlearn”, dos Box Cutter de Gordon Grdina, é um dos títulos mais “jazzy” de todo o catálogo da Spool. Guitarrista de Vancouver que por ocasiões também toca o oud (alaúde árabe), este antigo pupilo de Gary Peacock movimenta-se na linha de separação (ou de encontro, conforme a perspectiva de quem o ouve) entre o “mainstream” e a vanguarda, não raras vezes colocando um pé fora do jazz, e não apenas para se dedicar à sua paixão pela música clássica do Norte de África e do Médio Oriente – um dos seus investimentos de fundo vai para o quarteto de cordas East Van Strings, inspirado em Bela Bartok e Alban Berg, além do taqasim islâmico. A seu lado neste álbum estão o ilustre François Houle, por vezes tocando em dois clarinetes simultaneamente, e uma poderosa secção rítmica formada por Karlis Silins (contrabaixo) e Kenton Loewen (bateria). Ora “groovy” e melódica, ora espraiando-se por “free forms”, a intensidade da música que aqui se ouve dá bem conta do entusiasmo que move o quarteto.

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François Carrier / Dewey Redman / Michel Donato / Ron Séguin / Michel Lambert Open Spaces (Spool) 

François Carrier saxofone alto

Dewey Redman saxofone tenor

Michel Donato contrabaixo

Ron Séguin contrabaixo

Michel Lambert bateria  

Para o canadiano François Carrier, “Open Space” significa um regresso às bases dos conceitos improvisacionais que perfilha, isto é, à grelha do free jazz. A inclusão de uma lenda da “new thing” no grupo que neste disco se apresenta, Dewey Redman, foi a oportunidade encontrada, resultando num trabalho que tem todo o sabor dos anos do boom daquele subgénero (décadas de 1960 e 70), mas nada de nostálgico ou retro. O encontro (histórico) ocorreu nos finais de 1999 e tem, sem dúvida, aquilo que Carrier mais procura na música, a “atmosfera emocional” própria de uma abordagem que valoriza a espontaneidade acima de tudo. Fez o mesmo com Paul Bley, Gary Peacock, Bobo Stenson, Mat Maneri, Jason Moran e Uri Caine, mas esta parceria com Redman ganhou peso simbólico. Até pelo facto de o célebre saxofonista tenor ter deixado o mundo dos vivos pouco depois. A seu lado, o líder destas sessões dá conta com particular felicidade dos seus dotes no manejo do saxofone alto, nunca desmerecendo de tão nobre companhia.  

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Paul Rutherford / Ken Vandermark / Torsten Muller / Dylan van der Schyff Hoxha (Spool) 

Paul Rutherford trombone

Ken Vandermark saxofone tenor e clarinete

Torsten Muller contrabaixo

Dylan van der Schyff bateria  

O muito injustiçado trombonista Paul Rutherford morreu faz pouco, e se é verdade que só se dá a devida atenção a um pioneiro (foi-o da improvisação livre e do uso de técnicas extensivas – incluindo as que agora são imputadas a Albert Mangelsdorff – na Europa) após a sua partida, este documento de um encontro “ad-hoc” com Ken Vandermark, Torsten Muller e Dylan van der Schyff dá bom testemunho da versatilidade que o caracterizava. O envólucro dos procedimentos tem as cores do jazz, indo beber directamente às tradições do free (Rutherford chega a lembrar-nos o Roswell Rudd dos anos quentes, quando tocava com Steve Lacy, John Tchicai e Archie Shepp) e do hard bop (oiçam o saxofone tenor de Vandermark), sempre com a agitada propulsão da secção rítmica de Vancouver. E isto apesar de, por exemplo, a bateria de van der Schyff ter maiores afinidades com o que se faz deste lado do Atlântico nos domínios da livre-improvisação do que com o jazz do Novo Mundo.

 

 

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