Elliott Sharp – New York Blues

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Elliott Sharp        New York blues

Entrevista feita por Nuno Loureiro

Elliott Sharp é um dos nomes que se têm constituído como símbolos do avant-garde em Nova Iorque, mas a sua relação com a cidade mudou, porque – diz – esta “já não é a mesma”. O multifacetado artista sonoro fala sobre este assunto, assim como sobre o seu trabalho, deixando algumas reflexões sobre origem e identidade. 

Nuno Loureiro – Comecemos pelo presente. Em que é que tem estado a trabalhar? 

Elliott Sharp – Estou a compor uma peça de 45 minutos, intitulada “Polymerae”, para o Ensemble Moderne de Frankfurt, que irá estrear em Abril pela companhia de dança de Jacopo Godoni. Também já completei uma peça intitulada “Sidebands”, que é dedicada a Karlheinz Stockhausen e que vou apresentar no Fylkingen Festival, em Estocolmo. Isto para além de ter gravado um trabalho de cordas com o Sirius Quartet e duetos de improvisação com Frances-Marie Uitti, Josef von Wissem, Scott Fields e Saadet Turkoz. 

NL – Ao longo da sua carreira tem desenvolvido uma relação de proximidade entre instrumentação “convencional” e electrónica. Contudo, no projecto ““Sharp? Monk? Sharp! Monk!” optou por usar apenas uma guitarra. Foi essa uma opção conceptual, ou sentiu apenas que essa era melhor maneira de interpretar Thelonious Monk?  

ES – É usual eu tocar guitarra acústica em casa e a música de Monk é algo que eu gosto de tocar. Pareceu-me normal gravar o trabalho dessa forma. Tenho executado algumas gravações totalmente acústicas nos últimos anos e gosto bastante do som. 

NL – Depois do som mais “clássico” de projectos anteriores, em “Hums 2 Terre” voltou a territórios mais experimentais. Isso foi de alguma forma intencional, ou apenas parte de um processo natural? 

ES – Penso que nunca deixei nenhuma das áreas onde costumo trabalhar. Peças para orquestra, trabalhos “experimentais”, improvisação, blues, composições para filmes, electrónica e música computorizada – são todos caminhos paralelos. 

NL – Estudou várias e variadas disciplinas académicas, como por exemplo Etnomusicologia. Qual é a importância desse percurso e como é que ele se reflecte na sua produção musical? Na mesma linha de raciocínio, de que forma é que a física se reflecte no seu trabalho? 

ES – Tudo o que eu leio ou estudo acaba por fazer parte do processo! Gosto realmente da forma como os matemáticos e os físicos estabelecem a relação entre realidade e abstracção – é muito próxima da forma como eu componho e eu gosto de pensar que os meus processos musicais se operam da mesma forma. 

NL – Esta é provavelmente uma pergunta algo limitativa, mas – apesar de todas as suas outras influências – consideraria que os blues e o jazz são uma espécie de “esqueleto” do seu trabalho musical?

ES – Não sei se colocaria a questão dessa forma. Eu cresci a ouvir e a tocar blues e jazz – são tão elementos da minha vida como falar Inglês ou beber café. 

NL – Quais eram os seus músicos favoritos, na altura? 

ES – O primeiro disco de jazz que realmente “ouvi” foi “Live at The Village Vanguard”, de John Coltrane. Ouvi-o devido ao anúncio da sua morte no “NY Times”, no dia em que faleceu, o que despertou a minha curiosidade. Um amigo do meu pai tinha o disco e pô-lo a tocar – fiquei extasiado! O disco seguinte foi “Oh Yeah”, do Mingus, editado pela Atlantic – fantástico!Fiquei muito entusiasmado com o jazz tentava ouvir tudo o que conseguia arranjar, pesquisando em pilhas de discos em promoção (não tinha dinheiro!) e bibliotecas. Quando – no Verão de 1968 e enquanto ainda andava no liceu – me tornei DJ na rádio da Universidade WRCT de Carnegie-Mellon, tive acesso aos discos da ESP, assim como muitos trabalhos do Ornette, Ayler, Cecil Taylor, Pharoah Sanders, Sun Ra.A minha exposição aos blues começou com os The Yarbirds e os The Stones, e depressa comecei a ouvir Howlin’ Wolf com Hubert Sumlin, Muddy Waters, Lightnin’ Hopkins, Skip James, Robert Johnson, Sonny Boy Williamson, Big Joe Williams, Blind Willie Johnson, Otis Rush, Albert Collins, B.B. King, Albert King, Freddie King. 

NL – Quando é que se começou a interessar por sons mais experimentais? 

ES – Assim que comecei a pesquisar sobre música, interessei-me pelas margens. Quando era novo era um fã de ficção científica e adorava as bandas sonoras desses filmes (e ainda adoro): a composição de Bernard Herrman para “The Day The Earth Stood Still” e “Mysterious Island”, bem como a maravilhosa banda sonora electrónica de “Forbidden Planet”, composta por Bebe e Louis Barron, que ouvi pela primeira vez por volta de 1963.O acesso que tive à audioteca na WRTC permitiu-me investigar com profundidade diversos compositores, como Cage, Stockhausen, Xenakis, Partch, Ligeti (nesse Verão vi o “2001: A Space Odyssey”, com a incrível música de Ligeti), entre outros   

NL – Apesar de ser um multi-instrumentista, há algum instrumento que seja especial para si, no que diz respeito ao uso e ao som produzido?

ES – Sinto-me à vontade sobretudo com guitarras, mas sempre que tenho tempo para praticar adoro realmente tocar saxofone e clarinete. 

NL – Quando toca ao vivo, prefere interpretar peças “preparadas” ou antes improvisar, deixando-se levar pelo momento? 

ES – Eu gosto de todas essas opções – depende apenas da situação. 

NL – Não posso deixar de ter em mente a sua contribuição para o disco “Alphabet City” (editado na colecção United Series da editora Sub Rosa). De que forma se sente inspirado pelas cidades, no geral, e por Nova Iorque, em particular? 

ES – Nova Iorque era (e uso propositadamente o pretérito perfeito) um local muito inspirador para o trabalho criativo. Ainda adoro morar aqui, mas já não é a mesma coisa. Agora tem sobretudo a ver com marketing e consumo, não com viver uma fantasia criativa e a sua manifestação através da arte.   

NL – No seu diário online, mencionou o facto de ter tocado em Portugal apenas algumas depois do 11 de Setembro. Estava em Nova Iorque nesse dia? Quais são as suas principais memórias? 

ES – Tinha chegado de Varsóvia no dia anterior. Os meus principais pensamentos foram de raiva para com as pessoas responsáveis por aquele horror. NÃO os que pilotaram os aviões, mas o governo de George Bush e os seus comparsas da oligarquia empresarial. Apesar de não terem ordenado o ataque, as suas políticas criaram as condições para que ele acontecesse. Há muito a dizer sobre isto! 

NL – Após todos estes anos, qual é a sua visão sobre o que mudou na cidade, dos pontos de vista social e artístico? 

ES – A cidade está controlada por verdadeiras forças estatais. O seu carácter mudou e não há muito a fazer em termos de a manter com vitalidade enquanto local criativo. As cidades mudam e as forças criativas mudam-se para outros locais.

NL – Falando de Nova Iorque, sente-se de alguma forma próximo da Cultural Radical Judaica, promovida por John Zorn? 

ES – Não, de todo. A “cultura judaica” foi quase sempre radical, mas este movimento é particularmente sionista e reaccionário. Eu apresentei a minha peça “Intifada” no primeiro festival da Cultura Radical Judaica, na Knitting Factory, em Nova Iorque, e fui assobiado e insultado quando apresentei o preâmbulo ao concerto, onde afirmei que o judaísmo – seja cultural ou religioso – não é necessariamente o mesmo que sionismo e que, enquanto filho de um sobrevivente do Holocausto, considerava vergonhosa e aberrante a opressão israelita sobre os legítimos habitantes do território conhecido como Palestina.Eu não gosto mesmo nada de religião e nacionalismo – são a fonte de muito sofrimento humano! 

NL – Artistas como o próprio Zorn ou Z’ev inspiraram alguns dos seus trabalhos na sua herança judaica. Já houve alguma ocasião em que tenha empreendido uma abordagem semelhante? 

ES – Assim como todo o meu trabalho é baseado nos meus estudos nas áreas da ciência e da acústica, é igualmente baseado na minha herança judaica. Simplesmente não a uso na manga!

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